Pensar Fernando Pessoa:

Na Cultura do Espírito Oriental?

 

Josenia Marisa Chisini - UFMS

 

 

O cânone influenciador grego integrou-se permanentemente nas atividades literárias pessoanas, expandiu o diálogo com as absorções estéticas, filosóficas e civilizacionais. O trajeto revestiu-se de um processo intenso e heurístico, rastros de alcance multicultural e multidisciplinar, palmilhados pela fecunda genialidade da coterie heteronímica, que ajudou na construção da obra de Fernando Pessoa. Ao lado desse monumental campo de redes interativas desenvolveu-se a iniciação espiritual do escritor, seus compromissos humanísticos, demarcados pela filosofia mítica do “panteísmo transcendental”, inicialmente anunciada no ano de 1912. Posteriormente, dentre a época de 1914 a 1917, essas idéias retornaram nas discussões do heterônimo António Mora, que expôs o reflorescimento da filosofia pagã.

O alongamento espiritual, filosófico e panteísta distribuiu-se em três linhas de forças, que atravessaram os projetos, as construções literárias pessoanas, repercutindo nas sensações holísticas dos propósitos estéticos, culminando na arte sensacionista. O resultado teórico ficara representado na atuação expressiva do Movimento de Orpheu, que sublinhou a primeira linha de força panteísta. Assim sendo, os valores estésicos transmitiram as outras duas linhas diretivas: a mítico-filosófica e a Teosófica.

As impregnações dessas três linhas de forças deram sustentação às idéias de Pessoa e ao mesmo tempo propiciaram críticas às heranças platônica, pré-socrática e aristotélica. A permeabilidade das categorias filosóficas e a força mítica da mundivivência grega foram recompostas ao lado da gnose religiosa, de onde resultou a Teosofia, portadora desse saber arcaico. Alem disso, Fernando Pessoa em 1915, realizara a tradução de seis obras, que possuíam conteúdos teosóficos e o impulsionaram, decisivamente, à busca de sua iniciação espiritual. Vale ressaltar, que desde a infância, o escritor vivenciara a vocação espiritual num conjunto de fenômenos, dentre os quais a mediunidade, que o acompanhou até o ano de sua morte, conforme as suas próprias declarações.

A personalidade mutadora e inconstante do poeta lhe favoreceu o estabelecimento dos seus projetos e estudos elaborados com movimentos revisores e críticos. Estas articulações desenvolveram propostas intelectivas estéticas, políticas e espirituais, construídas com genialidade. O processo de criação artística possibilitou a prática da filosofia pagã do “panteísmo transcendental”, que Fernando Pessoa a associou ao seu espírito humanista, voltado ao resgate das origens culturais dos povos. Nesse sentido, o poeta constatara o envolvimento de duas espécies de iniciações espirituais: a individual e a coletiva; ou seja, a ‘exotérica’ através do contato “com os aspectos externos da verdade oculta” e a ‘esotérica’ alcançada “diretamente das mãos de Deus”. Este último processo diferenciava-se do primeiro e recebera em diversas ocasiões os depoimentos esclarecedores de Pessoa, que podem ser encontrados na cota E3 125 A8 do seu espólio.

As pesquisas desenvolvidas na tese de doutorado “A Estética Sensacionista de Fernando Pessoa, na Prosa de Mário de Sá-Carneiro”[1] documentaram a consistência profunda da espiritualidade pagã de Pessoa. Verifica-se nitidamente as absorções da filosofia mítica, de acordo com as conceituações e os relatos de Platão, transpostos às suas obras – o Timeu, o Crítias e o Fédon. Com este suporte de leituras pode-se interpretar e associar as categorias da “Alma do Universo”, sublinhando-se no “Todo”, nos eventos da cosmogênese, circunscritos ao pensamento demiúrgico da criação do mundo. Essa elaboração Pessoa a referendou, constantemente, sobretudo integrada à crença da reencarnação das almas e nas sensações da demiurgia artística. De maneira que a categoria do “Todo” representou a origem divina do universo, cujo pressuposto cosmológico compareceu nas categorias da imanência e da transcendência, articuladas por Pessoa, na sua filosofia do “panteísmo transcendental”. Assim, a centelha divina do primordial ato criador se reproduzia na elaboração da recriação artística, seguindo o ideário da arte sensacionista.

Partindo dessa fundamentação interpretativa é que se pode contextualizar o eco pagão ressoando nos heterônimos, nas interpenetrações culturais dos discursos pessoanos situados na tradição oriental da civilização grega. Esses vestígios foram ensejados no reflorescimento pagão do filósofo António Mora, que reinterpretou a voz ortônima de Pessoa, quando em certa oportunidade declarara: “Eu sou um pagão decadente do outono, da Beleza, do sonolecer [?] da limpidez antiga, místico intelectual da raça triste dos neoplatônicos da Alexandria. (...) Mais do que, propriamente, o dos neoplatônicos é o meu o paganismo sincrético de Julião Apóstata” (PESSOA, F. [Um paganismo heterodoxo: visão pessoana (?) do neopaganismo]. In: Fernando Pessoa obra em prosa, Rio de Janeiro: Aguilar, 1990, p. 169).

A transferência do ícone de “Julião o Apóstata” propiciou a Fernando Pessoa recriar mais um heterônimo, cujos discursos ficaram constituídos nos papéis intitulados “Juliano Em Antiochia[2]. A reconstituição das influências do imperador Juliano, o seu paganismo dilemático e a passagem cultural da Escola de Alexandria, ajudam na contextualização das críticas pessoanas inseridas no cenário transculturador e multicultural daquela região oriental da África. Verifica-se nesses territórios e nessas adjacências espaço-temporais históricas, dentre os três primeiros séculos, os embates, os litígios político-religiosos, disputando as imposições culturais e mercantilistas. Observando esses confrontos étnicos Fernando Pessoa dedica-se às análises da ganância transgressora religiosa, movida aos povos autóctones. Decorre desse conjunto de informações as posições do escritor referindo-se às relações internacionais estabelecidas entre os povos. Podemos sentir a força analítica da penetração pessoana nas explicações desenvolvidas no texto [A Heresia da gnose ][3], que pontua a complexa convivência oriental. Mas, ao mesmo tempo, Pessoa aproveita as manifestações difusoras e multiculturais da Escola de Alexandria, favorecendo o gérmen das interações interdisciplinares e multiculturais. No entanto, nota-se claramente, a dimensão contundente da crítica de Pessoa voltada aos conflitos religiosos, provindos da propagação do Judaísmo, tanto politeísta como monoteísta. É imprescindível percorrer o conjunto das análises empreendidas pelo escritor português para compreender-se as refutações feitas ao Islamismo, ao Budismo e ao Catolicismo. Pois nos litígios das fronteiras geográficas coabitaram as transgressões e as imposições político-religiosas, que causaram perdas irreparáveis a tradição das várias culturas pagãs arcaicas.

Portanto, o resultado da implantação monoteísta fora o “antissincretismo”, sublinhado por Pessoa e reiterado no contato transmitido pelas Ordens Secretas. Estas confrarias religiosas também tinham sido responsáveis pela dilapidação criminosa feita ao genuíno espírito religioso dos povos. Por conseqüência, a Teosofia produzira um saber equivocado, que Fernando Pessoa o denominara de a “heresia célebre da gnose”.

Reconstituindo-se o rastro judaico descrito no Espólio pessoano, verificar-se-ão nos 13 papéis, intitulados os “300”, dados sobre o funcionamento de uma organização mundial inspirada no “processo inominável dos 300”. Estes agentes fascistas e nazistas, modelos étnicos de segregação impuseram o domínio internacional financeiro, que Fernando Pessoa antevira, provavelmente, dentre os anos de 1917 até 1935. Posteriormente além do domínio financeiro, a Segunda Guerra Mundial deixou as inomináveis atrocidades, os crimes praticados não só contra o Judaísmo, mas às culturas pagãs.

As contundentes críticas de Fernando Pessoa trouxeram outras manifestações, dentre as quais estão as declarações: “o povo judeu distingue-se essencialmente, por um polytheismo crasso e grosseiro a que um monotheismo sacerdotal se nunca pôde impor senão convertendo-se num materialismo [?] crasso como o polytheismo substancial da raça” [sic] (PESSOA, F. In: E3 53 B-55 e 53 B- 57). As duras palavras dirigidas ao judaísmo raramente são comentadas ou transpostas pelos pesquisadores de Fernando Pessoa, pois no mínimo geram interpretações paradoxais, sobretudo, se considerarmos a descendência paterna judaica desse escritor e o seu talento humanístico, voltado aos propósitos espirituais. No entanto, é através da iniciação exotérica que se pode interpretar – qual era o judaísmo que o poeta combatia:

 

Não é do judaismo, em conjunto, que os 300 se servem: servem-se tam somente do baixo judaismo, do mesmo modo como se servem da decandencia europeia; e, se servem mais fortemente do baixo judaismo que dos degenerados de Europa, é que o baixo judaismo é uma organização universal, e a decadencia de Europa é um conjunto amorpho (de indivíduos). Assim como o judaismo se infiltrou na Maçonaria, para poder, por ella, operar na sombra, assim os 300 se servem do judaismo, para poder por elle o por o que elle move, operar na treva [sic] (PESSOA, F. Espólio, “300”, E3 53 B-62).

 

Os aspectos multiculturais evidenciados por Fernando Pessoa indicaram as transgressões cometidas pela Igreja Católica, que intervira no desenvolvimento do autêntico paganismo. Isto ocorrera, mais tarde, quando a promessa da implantação política do liberalismo francês, conduzira a falsa e deturpadora propaganda da bandeira da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Esse democratismo, na verdade, desenvolvera interesses anti-democráticos, pois a Igreja Católica, apenas se servira desse lema, provocando mais uma contaminação nas idéias e nas crenças pagãs.

Através desse caudaloso panorama político/cultural, Fernando Pessoa propôs três divisões civilizacionais: a hinduísta, a greco-romana e a do Norte da Europa. Com essa estrutura o escritor português vislumbrou a possibilidade de relembrar as idéias pagãs nos propósitos filosóficos e estéticos. Para tal fim utilizou o recurso do método comparatista, a partir do modelo civilizador greco-pagão, que concebera Deus através do exercício sobre-humano, com qualidades e limites humanos. Enquanto a religião da Índia, as qualidades do homem e dos limites da vida constituíam-se numa “prática de renúncia”.

Para demonstrar a conservação da tradição grega no pensamento de Fernando Pessoa é rentável acompanhar as concepções do heterônimo António Mora, projetando as idéias de Pessoa/ortônimo. Observa-se no texto “Conceito das Religiões”, da Obra em prosa deste escritor, a constituição das vias culturais religiosas: cristã, grega, budista e judaica. O momento lapidar desses discursos encontra-se no título de enfeite, colocado pelos compiladores em [ Erros na interpretação moderna do paganismo]. Através da pesquisa realizada na biblioteca particular de Fernando Pessoa, verificam-se nos registros da revista Tabacaria, de 1996, as indicações de várias obras sobre as culturas orientais, assinaladas nos povos da China, Índia, Arábia e Pérsia. Certamente, essas leituras foram aproveitadas por Pessoa, cujos títulos recaem nas obras: Vatsyayana; Le Kama soutra; Religious history of Japan e Confucius sa vie et sa doutrine.

No rastreamento das posições crítico-filosóficas pessoanas sobressai a voz de António Mora, o “demonstrador do paganismo completo”[4], que elegera a fonte grega como representante do “maior nível de evolução humana”. O conjunto das informações transmite os estudos do [ Paganismo a mais natural das religiões] cujo exercício da escola pagã demonstrava a prática filosófica natural da “pluralidade de cousas”, um modus operandi físico, que estabelecia a interação cosmogônica na mundivivência grega. Esta Weltanschauung politeísta diferenciava-se da budista, que expressava o “puro afastamento dos ideais naturalmente humanos”. A definição pessoana devia-se à origem dos deuses gregos, que possuíam qualidades e defeitos humanos. Portanto, o budismo era uma cultura religiosa movida pelo contrário, visto que divulgava o obscuro e desumano princípio, que, “a vida é uma ilusão”[5]. Mediante esse distanciamento pessoano das idéias orientais pagãs, circunscritas nas civilizações da Índia, da China ou do Japão, é que se pode constatar as ilações acima, por meio dos seguintes trechos:

 

Por outro lado, o paganismo (...) distingue-se do budismo, forma culminante da Weltanschauung da Índia. O budismo que poucos deveras conhecem é um objetivismo absoluto. (...) O budista é um pagão para quem o sentido da matéria se alarga indefinidamente. O budismo e, antes dele, a religião da Índia representam o mais puro afastamento dos ideaes naturalmente humanos, que o colecionador de doenças possa desejar encontrar. Partindo, clara ou obscuramente do princípio desumano de que a vida é uma ilusão, o budista ou bramanista ( ?? ) visa, no seu culto religioso transcender essa mísera humanidade [ sic ] (PESSOA, F. Obra em prosa. In: “Do Paganismo”, p. 173, 176).

 

Os estudos filosófico-pagãos ganharam outras dimensões através das reflexões dos heterônimos Álvaro de Campos e Ricardo Reis, que trouxeram elementos substanciais para se poder interpretar, contextualizar o pensamento, a arte literária delineada pelo heterônimo Alberto Caeiro. Uma amostra desses raciocínios encontra-se na recolha dos textos do Espólio pessoano, realizada por Luís Filipe Teixeira[6], nos fragmentos que compõem os textos de Ricardo Reis, sinalizados no Prefácio a Alberto Caeiro, cujo depoimento sublinha-se nestas falas:

 

A obra de Caeiro representa a reconstrução integral do paganismo, na sua essencia absoluta, tal como nem os gregos, nem os romanos, que viveram nelle e porisso o não pensaram, o puderam fazer. (...) Ignorante da vida e quasi ignorante das lettras, quasi sem convivio, nem cultura, fez Caeiro a sua obra por um progresso imperceptivel e profundo. (...) Foi um progresso de sensações, ou antes, de maneiras de as ter, e uma evolução intima de pensamentos derivados de tais sensações progressivas [ sic ] (TEIXEIRA, Luís Filipe. Rec., Trans. Fernando Pessoa e o ideal neo-pagão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p 22).

 

Ricardo Reis reafirma com novos esclarecimentos: “Caeiro, no seu objetivismo total, ou antes, na sua tendência constante para um objetivismo total, é freqüentemente mais grego que os próprios gregos. Duvido que grego algum escrevesse aquela frase culminante de O Guardador de Rebanho: A Natureza é parte sem um todo, onde o objetivismo vai até a sua conclusão fatal e última, a negação de um Todo”. (PESSOA, F. Obra em prosa. In: [ O Objetivismo de Caeiro], p. 111).

A observação perspicaz de Ricardo Reis traz a preferência modelar grega, que parece ter consonâncias às assinalações deixadas por Fernando Pessoa, em 1906, quando consultara a Biblioteca Nacional de Lisboa, ao pesquisar sobre os primeiros pensadores gregos. Nesse contexto são documentais as passagens relatadas no seu “Diário”[7], realçando os interesses sobre os fundadores da Filosofia – Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Górgias. Em outra ocasião vêem-se inscritas as idéias elaboradas por Parmênides e Górgias adicionadas às categorias do “ser, do nada, do infinito e do todo”, que assim estão articuladas:

 

Argumento: Nada existe. Se alguma coisa existir deve ser eterna, (Parmênides). O que é eterno é infinito: O Ser infinito não existe nem no tempo nem no espaço, o que limitaria ‘tour à tour’ (em toda a sua extensão).

(...) A indiscrição de Gorgias dá à aspiração de Heráclito ‘O Ser é nada (Vir a ser) é tudo’. (O Ser de Parmênides é de Zenão não passa duma abstração eterna e imutável sem atributos positivos [ sic ] (PESSOA, F. Obra em prosa, p. 540).

 

A filosofia que trata da nadificação do ser ganha ampliação explicativa, através de uma entrevista entre Álvaro de Campos e o seu mestre Alberto Caeiro. A reconstrução interpretativa estabelece os nexos entre o materialismo, o infinito e a concreção do pensamento objetivista de Caeiro, transposta neste diálogo:

 

Ora o meu mestre Caeiro tinha lá mesmo esse mesmo conceito. Vou contar, creio que com grande exatidão, a conversa assombrosa em que mo revelou.

(...) ‘Não concebo nada como infinito. Como é que eu posso conceber qualquer coisa como infinito?’

(...) ‘Se acaba, depois não há nada’, respondeu

(...) Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe (PESSOA, F. Obra em prosa. In: “Notas para recordação do meu mestre Caeiro”, p. 108, 109).

 

Fernando Pessoa evidenciara a importância da poética de Alberto Caeiro nos registros das idéias que construíram o sensacionismo. As elaborações artísticas das sensações combinadas por Caeiro diferenciavam-se das demais elaborações literárias dos heterônimos, compreensível foram as declarações de Pessoa, observando a poética de Caeiro, sendo “espantosamente nova” e por isso fora construída “fora da civilização”, não tendo qualquer ternura. O resultado dessa concreção absoluta das idéias, Pessoa o remeteu ao contexto expressivo da cultura grega, nas palavras: Caeiro vê “as coisas com olhos apenas, não com a mente.” Esta perspicuidade exigia uma interpretação condizente à representação da verdade artística, na qual vê-se a “arte poética de filosofar”, desenvolvida por Caeiro, que sentia “positivamente aquilo que até aqui não podia ser concebido senão com um sentimento negativo”[8]. Cabe nestas falas a reinterpretação de Górgias e de Parmênides, que a entrevista entre Álvaro de Campos e Alberto Caeiro deixara à vista, quando estão os comentários recaem sobre o Infinito, o Todo, o Nada e o materialismo, sendo categorias utilizadas de maneira errônea pela estética Futurista.

O raciocínio, as sensações poéticas circunscritas na linguagem de Caeiro irradiaram as marcas prodigiosas das influências gregas, que Pessoa recebera, ainda adolescente, na Escola de Durban, por meio do contato com as leituras emprestadas da coletânea de N. R. Paton, The Greek anthology[9], constituída de 4000 poemas, distribuídos em cinco volumes. A antologia foi encontrada na biblioteca de Fernando Pessoa e está indicada na revista Tabacaria na cota 8-235.

Conclui-se que Caeiro não nos fala das questões efêmeras, aludidas à Natureza, à vida espiritual da filosofia da religião budista e nem mesmo refere-se às dissidências Zen ou de qualquer outra religião. O paganismo de Caeiro distancia-se da prática ascética, visto que o heterônimo realça a poética de conteúdos exteriores, que expressa o cânone permeável da forma grega, lembrando a cosmogênese, as lembranças de um passado remoto, ligado aos procedimentos das verdades construídas pela Physis e disso falaram também os primeiros filósofos gregos: Tales, Górgias e Parmênides. Essa função do pensamento deve ser compreendida numa elaboração in natura, e portanto estava de acordo com a primitiva concepção cultural grega, na qual os deuses eram divindades com o ethos baseado na tradição do cotidiano e sem aspirações metafísicas.

Conclui-se que é temerário conferir-se à poética de Caeiro valores e interpretações que extrapolem a idealidade vivencial desse poeta, induzindo suas influências nos campos culturais orientais de procedências religiosas budista ou das dissidências Zen. A forma de pensar de Caeiro não emite nexos de renúncias vivenciais e nem tem interesses contemplativos ascéticos. Caeiro lembra os pensadores gregos que entendiam o Universo, a “Alma do Mundo”, representando “ as coisas”, os seres, aquilo que é visto concretamente, por isso confundindo-se com o pensamento materialista. Para obter-se essas conclusões são importantes as leituras dos fragmentos do Espólio pessoano E3 121 – 53 e 53v (LOPES, Teresa, R. Coord. Pessoa inédito. In: [Caeiro, filósofo à grega], p. 277-78).

Alberto Caeiro confirma a sua crença na imortalidade da alma, que se impregna nas coisas, nos seres e por isso estabelece elos com o panteísmo grego – que “vê as coisas como elas são”, in statu nascendi, sem os vícios, sem as contaminações metafísicas e sem os imperativos da ciência ou da técnica. Alberto Caeiro também não pode ser interpretado pelo viés de Platão, que pensa o “supra-sensível”, pois Caeiro desaloja a metafísica – quer ser o “Argonauta das sensações verdadeiras”, assim, o heterônimo de Pessoa viaja nos sentidos verdadeiros do paganismo grego, impregnado de nitidez:

 

Minha alma é como um pastor

O ORFEU OLHAR é nítido como um girassol

Pensar é estar doente dos olhos

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

HÁ METAFÍSICA bastante em não pensar em nada.

O único mistério é haver quem pense no mistério.

O essencial é saber ver.

Saber ver sem estar a pensar.

Sou o Descobridor da Natureza.

Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.

(PESSOA, F. Obra em prosa. In: “O Guardador de rebanhos”, p. 203, 204, 205, 207, 217, 226).



[1] Josenia Marisa Chisini. “A Estética Sensacionista de Fernando Pessoa, na Prosa de Mário de Sá-Carneiro”. Assis, 2000, 506 páginas, 2 volumes, Tese (Doutorado em Letras), Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Assis, Universidade Estadual Paulista, “Júlio de Mesquita Filho”. O trabalho revelou a permanência do cânon grego, através das categorias do “Todo, das partes, da Alma do Universo do infinito e do nada”, na constituição do pensamento de Fernando Pessoa e de seus principais heterônimos: Álvaro de Campos, António Mora, Ricardo Reis, Rafael Baldaya e Alberto Caeiro. As pesquisas da tese foram embasadas nas fontes, nos estudos investigativos da filosofia de Platão, da Escola de Tübingen/Milão, relatadas no relevante trabalho colhido de 1950 a 1990 por Giovanni Reale, Para uma nova interpretação de Platão, 14ª. ed. (Trad.) Marcelo Perine, São Paulo: Edições Loyola, 1997.

[2] Veja-se o arrolamento das obras encontradas na biblioteca particular de Fernando Pessoa, circunscrito na revista Tabacaria, Lisboa: Casa Fernando Pessoa, Contexto, fev., 1996, p. 83-84, cota 8-285. De acordo com as pesquisas realizadas na tese de doutorado “A Estética Sensacionista de Fernando Pessoa na Prosa de Mário de Sá Carneiro”, defendida na UNESP/Assis, em abril de 2000, coligi no Espólio pessoano os seguintes papéis sobre o tema do Imperador Juliano, assim revelando a interpretação de mais uma nova fonte heteronímica em Fernando Pessoa: LOVE – POEM, E3 44-5; 42-26; 42-25; “Legendas”, 43-13; “Juliano em Antiochia”, 44-47. Interessante é se verificar os discursos de Ricardo Reis lembrando o imperador Juliano em Fernando Pessoa obra em prosa. In: [ A Poesia de Caeiro fonte de consolação], Aguilar, 1990, p 126.

[3] [A Heresia da gnose], documenta a maneira histórica pela qual se perdera o genuíno paganismo grego (PESSOA, Fernando. Obra em prosa, Aguilar, 1990, p. 192-191). Ainda leia-se no texto [Erros na interpretação moderna do paganismo] as palavras de Heródoto, revividas por António Mora: “As divindades índias são (disse) de forma humana, as gregas de natureza humana. (...) Porque mesmo nos pontos em que as duas religiões encaram a subida do homem a deus, na religião grega ele sobe pelo exercício sobre-humano das qualidades humanas. (...) na religião índia, por contrário, as qualidades que elevam o homem a sobre-homem são qualidades, onde se nega a vida, são as qualidades ascéticas. (...) A moral cristã é a moral da fraqueza (?) e da incompetência. (...) a religião cristã é uma religião da decadência romana” [sic] (PESSOA, Fernando. Obra em prosa. In: Opus Cit., p. 183, 185).

[4] António Mora discorre sobre as influências das religiões politeístas, através da função da pluralidade dos deuses, cujo panteísmo desdobrava-se no contato da própria pluralidade da natureza: “A natureza, naturalmente, não nos surge como um conjunto, mas como ‘muitas coisas’, como pluralidade de cousas (...) O budismo e, antes dele, a religião da Índia representam o mais puro tipo de afastamento dos ideais naturalmente humanos que o colecionador de doenças possa desejar encontrar. (...) o budista ou bramanista (??) visa no seu culto religioso, transcender essa mísera humanidade. (...) o paganismo grego representa o mais alto nível da evolução humana” (PESSOA, Fernando. Obra em prosa. In: [ Paganismo, a mais natural das religiões ], p. 175-76).

[5] PESSOA, Fernando. Obra em prosa. In: [ Paganismo, a mais natural das religiões ], p. 175-76.

[6] Luís Filipe Teixeira (Rec., Trans.) Fernando Pessoa e o ideal neo-pagão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.

[7] “Diário” de Fernando Pessoa foi compilado e recebeu explicações através das pesquisas de Teresa Sobral Cunha em Cadernos – colóquio letras. In: “Fernando Pessoa diário inédito de 1906”, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, v. 95, jan./fev., 1987, p 80-95.

[8] Fernando Pessoa obra em prosa. In: [ Caeiro em confronto com outros poetas e com outros heterônimos ], Aguilar, 1990, p 129. A dimensão das idéias de Caeiro podem ser avaliadas na obra em referência, no subtítulo [ Reis discípulo e prefaciador de Caeiro ], onde se lê: “Talvez Caeiro proceda de Pascoaes; mas procede por oposição, por reação. (...) Caeiro nos espanta e exala novidade absoluta. (...) como um homem de uma excepcionalmente clara visão das coisas. (...) Vê as coisas com os olhos apenas, não com a mente. (...) Sente positivamente aquilo que até aqui não podia ser concebido senão como um sentimento negativo. (...) Sua poesia é ‘sensacionista’. (...) Caeiro é o sensacionista puro e absoluto que se curva diante das sensações qua exterior e nada mais admite. (...) A sensação é tudo, afirma Caeiro, e o pensamento é uma doença” (PESSOA, F. Obra em prosa. In: “Caeiro e Pascoaes”, p. 129-130).

[9] A coletânea The greek anthology oferece leituras multiculturais literárias, que reúne em torno de 4000 poemas. Fernando Pessoa tivera o contato com esses textos, inicialmente na sua adolescência, vivida em Durban. A obra consta na biblioteca de Fernando Pessoa, no elenco bibliográfico da revista Tabacaria, Lisboa: Contexto, 1996, p. 82, cota 8-235, porém, com outra edição mais moderna, daquela lida em Durban.